“Um dia, um senhor me disse: ‘o não, a gente já tem. Temos que correr atrás do sim. ’ Você não acha?”
rsrsrsrs...



domingo, 31 de janeiro de 2010

GENTILEZA

De todas as coisas intrigantes e questionáveis do mundo moderno uma que realmente me inquieta é ter que admitir a banalidade da vida. Não quero aqui dizer que penso que a vida é fugaz e sem sentido, mas sim ressaltar a catastrófica transformação que vem atingindo este dom tão maravilhoso e único que recebemos e que, em troca, devemos apenas honrá-la e aproveitá-la da forma mais plena e digna possível. E para tanto, é necessário reencontrarmos os valores dos pequenos gestos, valores estes que só se tornam possíveis através da gentileza.


Através da gentileza temos a oportunidade de exercitar uma das muitas manifestações do amor: O AMOR AO PRÓXIMO. Como diz o segundo mandamento da lei de Deus, “Amar ao próximo como a ti mesmo”, respeitando-o e preocupando-se com o bem estar daquele que, no momento, estamos convivendo ainda que não o conheçamos é um exercício da gentileza em sua dimensão mais plena. A não percepção e conseqüentemente a falta de integração impossibilita o exercício da gentileza, abrindo espaços para manifestações de atitudes de violência e descaso. E é através destas manifestações descontroladas que estamos sofrendo cada vez mais intensamente as conseqüências de um mundo cruel e sem respeito.


As pessoas têm dificuldades em manifestar atitudes de gentileza por que estão, na maioria das vezes, centradas nos seus próprios interesses. Isso por que, com os problemas do mundo moderno, as famílias passam a criar novas regras de sobrevivência que tornam os seres humanos cada vez mais individualistas e muitas vezes, egoístas. Dizemos aos nossos filhos que eles não devem relacionar-se com pessoas desconhecidas, nos preocupamos, muitas vezes em selecionarmos os seus amigos e tentamos protegê-los a cada dia. Por conta disso, nós o confinamos em condomínios murados e com guaritas de segurança, os deixamos de carro ou transporte escolar na portaria das escolas onde passam parte do dia enclausurados e até acreditamos estar assim os protegendo dos seus próprios “semelhantes” que podem lhe causar algum tipo de mau. Por outro lado, permitimos que tenham 600 amigos virtuais em sites de relacionamentos. Ou seja, os proibimos do convívio e de relacionar-se com quem está próximo impedindo assim o exercício da gentileza e favorecemos o individualismo, a falta de limites (de tempo, de espaço, de amigos...) e a falta de contato físico.


Costumo dizer pros meus alunos adolescentes que é preciso enxergar o próximo. Eles se surpreendem quando pergunto o nome de um colega da mesma classe e eles admitem não saber. Ou mesmo quando pergunto por algum aluno que faltou, e tem sempre alguém que não sabe de quem se trata. Eles sempre riem quando falo que as vezes os observo nos intervalos e percebo como eles passam uns pelos outros, quase sempre com seus fones nos ouvidos, e não se enxergam! São inúmeras as vezes em que tombamos nos corredores e eles seguem seus caminhos sem se quer perceberem a trombada. Enxergar o próximo significa percebê-lo. Olhar nos olhos, conhecer o espaço de convivência e as pessoas com quem se convive pelos seus nomes, fazer e responder a perguntas, perceber que alguém está triste, perceber quando faz alguém ficar triste, é pedir desculpas ou desculpar e ficar feliz por isso, é dar bom dia quando chega e se despedir quando sai, é impor limites e respeitar os direitos do outro.


O que percebo é que essa falta de gentileza vem promovendo a banalização da vida. Valores importantes são desrespeitados levando o ser humano a situações extremas como, até mesmo, atentar contra a vida do outro por razões cada vez mais fúteis. E é exatamente nestas horas que me pergunto: Onde fica o “amar o próximo como a ti mesmo”? Talvez pareça meio piegas nos dias de hoje, porém é exatamente isso que falta na grande maioria das pessoas: sentimentos. Precisamos despertar nas nossas crianças e adolescentes sentimentos e emoções positivas para que possam redescobri valores já tão adormecidos. É preciso conviver e interagir com os outros para poder ter a chance de ser gentil e descobrir na prática o valor do ser humano. É muito mais difícil se construir valores como companheirismo, respeito e confiança quando estamos a maior parte do tempo, num mundo virtual, onde podemos criar a identidade que quisermos, deletarmos os “amigos” que incomodam e dizer o que quisermos. Diante da telinha e do teclado, muitas pessoas são tomadas por uma estranha coragem de dizer tudo o que pensa sem limites ou censura.


Desta forma, o que poderemos esperar para o futuro dos nossos filhos, netos e para o mundo de um modo geral senão pessoas confinadas, cada vez mais amedrontadas e, o que é pior, deixando de exercer a tão sonhada gentileza?


Por a culpa nos governantes que não conseguem resolver a questão da violência é realmente a forma mais imediata de admitir que estamos todos de braços cruzados. É óbvio que queremos líderes comprometidos e buscando soluções para diminuir o índice de descaso e violência contra o ser humano, porém querer só não basta. Se quisermos bons líderes, precisamos formá-los. E isso implica em ensinar aos nossos filhos o mandamento do amor ao próximo. Deixá-los “protegidos” em frente a computadores, TVs e jogos é incentivar o individualismo e a falta de convivência com os seus semelhantes. Como podemos querer governantes comprometidos com os seus governados se não permitimos que os nossos filhos enxerguem o seu próximo. Amar é um exercício constante. Não se aprende com os livros ou nos sites de busca e de relacionamentos da internet. É preciso conviver com os seus semelhantes para aprender a amá-los e respeitá-los. O que vemos, ao contrário, é cada vez mais crianças e adolescentes envolvidos em crimes e assassinatos e sem a menor chance de reabilitação. Pessoas são mortas brutalmente por indivíduos que não expressam o menor sentimento de arrependimento ou preocupação com a dor do próximo. Afinal de contas, ninguém também se preocupa com a dor causada a estes indivíduos que são, muitas vezes, vítimas de uma sociedade cruel e injusta que por um lado seleciona e por outro, exclui.


Precisamos acreditar que a paz, a harmonia, o respeito ao próximo é possível. Precisamos de pessoas comprometidas e que exercitem o “amar ao próximo como a ti mesmo” de forma plena. Desta forma, teremos uma sociedade inclusiva que respeita e valoriza o nosso bem maior: A vida!


Filme:


Pay it Forward (A corrente do bem)










2 comentários:

  1. Clôzinha!!!
    Que texto lindo! Adorei seu blog. Depois vou voltar pra ler tudinho com bastante calma. Vc escreve lindo!!! Beijocas
    Cris

    ResponderExcluir
  2. Maninha...
    Estou admirada e feliz com sua força de expressão..
    Te amo.

    ResponderExcluir