“Um dia, um senhor me disse: ‘o não, a gente já tem. Temos que correr atrás do sim. ’ Você não acha?”
rsrsrsrs...



terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Mar e Sol (Gal Costa)


Um Sol
Eu sou
Para o seu mar, ó meu amor;
Você
O mar é
Para o meu Sol, para eu me pôr;

Me pôr
Em você,
Me espelhar, me espalhar;
Meu Sol
De arrebol
Deitar no leito de seu mar –

E entrar em você,
Em você queimar, arder;
Em você tremer, em você,
Em você morrer, morrer.

Um só,
Um nó
De fogo e água, terra e céu,
A sós,
Somos nós,
De corpo e alma, você e eu;

E eu
A descer,
A desnascer, desvanecer;
A ser
Em você
Um Sol a se dissolver –

Ao entrar em você,
Em você queimar, arder;
Em você tremer, em você,
Em você morrer, morrer.

Depois,
Nós dois,
Olhos nos olhos, vis-à-vis,
Nos seus
Olhos meus,
Me vejo no que vejo ali;

Ali,
Eu-você,
Olho no olho a se espelhar,
Amor,
Sem temor,
Olho o que eu olho me olhar –

Ao entrar em você,
Em você queimar, arder;
Em você tremer, em você,
Com você morrer, morrer.

Paixão de fogo de paixão
De fogo de paixão
De fogo de paixão,

Em que me afogo de paixão
Me afogo de paixão
Me afogo de paixão




Album: HOJE – 2005

Compositor(es): Lokua Kanza / Carlos Rennó




Mar e Sol Interprete: Gal Costa

Mar e Sol

Coisa mais bela e perfeita é a harmonia do toque no encontro entre o sol e o mar. Um encontro de água e fogo que se tocam e se penetram lenta e intensamente numa celebração de unidade plena. O mar se prepara e aguarda pelo momento exato em que o sol se espalha em seu leito, absorvendo cada milímetro de sua extensão num abraço que envolve e sorve todo o seu calor. Neste momento, as águas tornam-se um espelho refletor do brilho intenso da chama vermelha espalhada em seu amplo leito de amor.

E o sol, enquanto desce, derrete, desvanece nas águas do mar percorrendo o inverso do ser, desnascer, dissolver. E ao entrar queimando, ardendo e tremendo, parecer morrer, morrer de prazer. Transformar-se num nó, num só. Num elemento que une fogo e água, terra e céu. Contemplação perfeita! Ainda que diante dos olhos expectadores é, ao mesmo tempo, um espetáculo solitário, corpo e alma, como corpos desnudos e sedentos de calor e frescor.

Ali, contemplar-se: Olhos nos olhos, olhar nos olhos e se vê no reflexo do encontro de Mar e Sol. Sem temor, espelhar-se. Com amor, olhar o que olhas te olhar. E se afogar de fogo de paixão

Clô Gonzaga

terça-feira, 1 de dezembro de 2009





Bons ventos me fizeram chegar até aqui. Isso mesmo. Venho de muitos lugares e talvez cansada de ter que esperar tanto para poder fazer o que sempre tive vontade. Escrever é com certeza uma delas. Registrar pequenos detalhes, fatos e acontecimentos da minha vida proporcionando-me assim a satisfação de poder compartilhá-los e revivê-los futuramente sempre fizeram parte dos meus planos, quase sempre postergados, em detrimento de atribuições da vida tão corrida, tão sem tempo e, por que não dizer, tão moderna. Posso dizer que sou parte integrante da porção humana que fora “contemplada” com um pit stop no meio da corrida. Parar para reabastecer, fazer ajustes ou até mesmo trocar algumas peças pode ser uma grande chance para se fazer um zoom e perceber a vida de forma mais nítida e precisa. Digo isso porque, já tão acostumada ao ritmo continuamente acelerado, parei prá consertar. Isso mesmo, depois de passar um bom tempo ouvindo médicos, enfermeiras, amigos, curiosos, de ter garimpado por sites informativos e, até mesmo assistido a vídeos dos procedimentos cirúrgicos ao qual experimentaria em pouco tempo, não tive como não ceder à difícil cirurgia na coluna lombar.

Coisa simples: Fazer um corte de aproximadamente trinta centímetros, abrir um espaço até a coluna, descomprimir as vértebras fixando-as com seis pinos de titânio, duas hastes de suporte e depois fechar tudo e me mandar de volta prá casa. Ah! Já ia esquecendo. Antes disso, uma paradinha na UTI para recuperar e mais alguns dias num quarto do hospital para reaprender alguns procedimentos bem básicos. De repente me vi tentando fazer coisas que aprendi na primeira infância, com um grau de dificuldades que me fazia pensar em desistir, muitas vezes. As dores quase que insuportáveis, apesar das fortes drogas, tornaram-se companheiras inseparáveis. Esvaíam-se só quando tomada pelo sono longo e profundo causado pelo efeito dos fortes sedativos. A todo o momento, uma figura ali presente não poderia deixar de ser notada mesmo nos momentos de maior aflição. Doce, serena, forte era o reflexo da própria dor que eu sentia tão intensamente! Vez por outra, eu fechava os olhos para não ter que enxergar a minha dor naqueles olhos curiosos e acolhedores, enquanto que eles, constantemente, me exigiam que os entregasse todo o meu sofrimento. Sim, tudo que podia ver naqueles olhos era o desejo avassalador de tomar as minhas dores e ficar com elas enquanto me recuperava. E sofria por não conseguir tomá-las de mim. Por muitos dias fomos um grande paradoxo entre fraqueza e força, desânimo e desejo, treva e luz, ceticismo e fé. Acho que mesmo sendo mãe ainda não tinha experimentado tamanha certeza de que somos parte de um todo indivisível. É uma ligação que transcende o eu tornando-o pequeno diante das necessidades do outro. Que sente, chora e nunca abre mão de sofrer a dor que dói na sua parte que cresceu fora do seu corpo. E nesta situação de total carência é que, aos 41 anos, pude descobrir mais um dos mistérios do amor de mãe.

Então é este o meu grande momento. O que até bem pouco tempo achava impossível é hoje a minha mais pura realidade: o afastamento do meu trabalho, das minhas múltiplas atividades de mãe, esposa, mulher, dentre outras muitas e me dedicar a ser simplesmente filha. A você, mãezinha te agradece por cada dia da sua vida dedicado a mim. Sei que se fosse preciso, o faria da mesma forma e com todos os sacrifícios. Resta deixar aqui registrado o meu agradecimento e acima de tudo, o meu amor que a cada dia cresce e amadurece ainda mais por você.